
A noite caiu, a Lua desvencilhou-se das nuvens e com seu luar iluminou a passagem para que as suas crias teçam os fios dos seus destinos.

O vento rasga, envolve o corpo, e não conforta. Pelo contrário espalha sussurros, que soam como se nossos íntimos segredos esvaíssem das prisões das nossas mentes, contaminam os labirintos das consciências, e alimentam os demônios habitantes dos seus interiores.

Nossa fúria é quase que contida, então nos desumanizamos e trazemos a Besta em cada expressão colérica da face ou dos golpes de nossas armas.

Ou será que somos nós os demônios que contaminamos a cidade labiríntica, caçando e predando a vida por nossos ódios e frustrações?

Chegamos ao ponto que nossos temores são como horrores que a qualquer sinal de ameaça, ou até mesmo os sinais invasivos do amor, incitamos por instinto ou impulso primitivo os punhos e nervos.

A sobrevivência quase sempre segue a máxima de nossos ancestrais “os animais são máquinas de sobrevivência. Cada criatura é um pináculo da evolução, cada uma possuindo uma capacidade de temer profundamente. Cada um de nós está aqui porque cada fibra de nosso ser está imbuída com uma vontade de fugir ou correr ao menor sinal de problemas. O que foi um dia nossa salvação, hoje é nossa sentença.”

O que falar de nossos prazeres, fonte e supressora da vida a envolver todos numa mortalha infinita, onde não há chance para a defesa do predado. Hoje nem sempre é assim, pois quando a noite cai, nem todos são prezas, e ainda mais perigosos em seus habitats: seja na urbe ou na floresta.

Amanheceu, revezam-se os turnos, e invertem-se os papéis: é a vez do caçador virar caça, e da preza por conhecimento, emulação ou vingança virar o predador.

Não há lugar seguro para se esconder, e nossas consciências estão habitadas por nossos próprios monstros, fazendo do descanso outra fonte de extenuação e preocupação.

A noite cai.

Hora de acordar novamente...